Vítima de racismo vence na Justiça e compra apartamento
Uma história de violência e superação marcou a vida de Noemi Ferrari, que sofreu racismo logo em seu primeiro dia de trabalho em uma farmácia da rede Raia Drogasil, em São Caetano do Sul (SP). Após anos de constrangimentos e agressões verbais, a jovem venceu uma ação trabalhista e transformou a indenização recebida em um passo importante para recomeçar a vida: a entrada em um apartamento próprio. O caso tomou repercussão nacional na última semana.
O episódio de 2018
Noemi tinha acabado de ser contratada quando foi alvo de comentários discriminatórios feitos por uma superior. A chefe gravou um vídeo para apresentar a funcionária em um grupo de WhatsApp, mas o registro acabou se tornando prova da agressão.
Na gravação, a gestora ironiza a presença da nova contratada, dizendo: “Essa daqui é a Noemi, nossa nova colaboradora. Tá escurecendo a nossa loja? Acabou a cota, tá? Negrinho não entra mais”.
Constrangida, Noemi chegou a fingir que nada havia acontecido para não perder o emprego.
Anos de resistência
Apesar da humilhação, ela permaneceu na empresa e, em 2020, chegou a ser promovida a supervisora. Dois anos depois, porém, um novo episódio de agressão verbal — desta vez envolvendo outro superior — levou à sua demissão.
A saída definitiva foi o estopim para que a ex-funcionária buscasse seus direitos na Justiça.
Decisão judicial
O caso foi analisado pelo Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região. A juíza Rosa Fatorelli reconheceu que os vídeos e depoimentos comprovavam ofensas racistas e situações de assédio moral. Para a magistrada, não se tratava de “brincadeira”, mas de manifestações de racismo estrutural e recreativo, incompatíveis com a dignidade humana.
A Raia Drogasil foi condenada por não garantir um ambiente de trabalho adequado. Noemi recebeu uma indenização de R$ 56 mil, valor que guardou e aplicou antes de dar entrada no apartamento.
Apoio psicológico e nova fase
O processo judicial trouxe lembranças dolorosas, mas também abriu espaço para uma reconstrução pessoal. Noemi contou com acompanhamento psicológico, além da ajuda de amigos, família e da igreja. Hoje, trabalha como gestora na área da saúde e diz estar pronta para novos desafios.
A posição da empresa
Procurada, a Raia Drogasil afirmou lamentar o episódio e reforçou que não compactua com práticas discriminatórias. A rede destacou iniciativas de diversidade e inclusão em seus quadros.
“Lamentamos profundamente o episódio que ocorreu em 2018. Reiteramos nosso compromisso com respeito, diversidade e inclusão. Em 2024, encerramos o ano com mais de 34 mil funcionários pretos e pardos, sendo 50% em cargos de liderança, resultado direto de programas estruturados de equidade racial”, informou em nota.
