Gafieira
O Rio de Janeiro viveu um momento histórico com a primeira celebração oficial do Dia da Gafieira, instituído pela Lei nº 9.411/2026, que estabelece o dia 17 de julho como data permanente no Calendário Oficial da Cidade. A comemoração aconteceu durante uma edição especial do projeto Gafieira Rio Antigo, realizado pelo Rio Scenarium, reunindo música ao vivo, dança de salão e homenagens a personalidades que contribuem para a preservação dessa manifestação cultural.
A iniciativa reconhece uma tradição construída ao longo das primeiras décadas do século XX por músicos, dançarinos, pesquisadores, professores de dança, produtores culturais e frequentadores dos tradicionais salões cariocas. O projeto Gafieira Rio Antigo nasceu com o objetivo de resgatar o ambiente das antigas gafieiras e reafirmar a importância desse patrimônio para a cultura brasileira.
A pesquisadora, saxofonista e professora Daniela Spielmann, que dedicou seu doutorado na UNIRIO ao estudo das gafieiras cariocas, explica que a escolha da data faz referência à inauguração da tradicional Gafieira Elite, em 1930, utilizada como marco histórico para a celebração.
“Na verdade, estamos comemorando pela primeira vez. A data foi escolhida por causa da inauguração da Gafieira Elite, em 1930.”
Para Daniela, a gafieira não pode ser resumida apenas a um salão de dança.
“Gafieira é um encontro. É um espaço onde existe música pensada para a dança a dois. Envolve a ambiência, a roupa, a banda, os dançarinos. É todo um contexto.”

Dia da Gafieira
Ela destaca ainda que a tradição permanece viva justamente pela capacidade de reunir pessoas em torno da música brasileira.
“Ela embala a dança a dois, embala o encontro, embala novos compositores e a energia de estarmos juntos. É diferente de ficar apenas em casa assistindo a um streaming.”
Ao explicar a um estrangeiro o significado da gafieira, Daniela resume a experiência como uma expressão da elegância brasileira.
“É um samba muito elegante, dançado a dois, com muita sabedoria no movimento e na condução do casal, ao som de uma música muito bem executada.”
Responsável pela produção do Gafieira Rio Antigo, Aglaise Silva conta que a criação do Dia da Gafieira nasceu de uma pergunta simples sobre a inexistência de uma data oficial dedicada a essa manifestação cultural. A partir dessa provocação, pesquisadores e produtores culturais iniciaram um levantamento histórico que culminou na aprovação da lei.
Segundo ela, apesar da enorme importância artística e social da gafieira, ainda faltava um reconhecimento institucional capaz de valorizar sua contribuição para a identidade carioca.
“A gafieira é uma reunião social onde existe aproximação, acolhimento e uma troca muito mágica entre as pessoas.”
Aglaise ressalta que a riqueza musical da gafieira vai muito além do samba.

Dia da Gafieira
“Não é só samba. Tem samba, bolero, chá-chá-chá, maxixe. Tudo isso faz parte dessa história.”
Para a produtora, manter os bailes em atividade significa preservar espaços de convivência e inclusão.
Faço muita questão de lutar para que esse baile permaneça, porque ele é um lugar de acolhimento, principalmente para as mulheres. A dança oferece atenção, convivência e pertencimento. Aglaise Silva
“Convido todos que queiram sentir a energia que a dança pode trazer para cada pessoa que entra em um baile de gafieira.”
A escolha do Rio Scenarium para sediar a primeira celebração também tem um significado histórico. O Palco Dolores, onde acontece o Gafieira Rio Antigo, ocupa um endereço que, há cerca de 70 anos, abrigava o tradicional Clube Humaitá, um dos antigos salões de dança frequentados por personagens da boemia carioca. A memória desse passado reforça a vocação do espaço para manter viva a tradição da gafieira.
Entre os homenageados da noite esteve Plinio Froes, reconhecido por sua contribuição à preservação da cultura da gafieira. A homenagem reforçou o objetivo da celebração: valorizar personagens que ajudam a manter viva uma das mais importantes expressões da identidade cultural do Rio de Janeiro.
Mais do que instituir uma data comemorativa, o Dia da Gafieira representa o reconhecimento de uma manifestação cultural construída coletivamente por músicos, professores de dança, pesquisadores, produtores culturais, escolas de dança, comunicadores e dançarinos que seguem preservando uma tradição que continua embalando encontros, histórias e novas gerações de apaixonados pela dança.
